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Texto sob licença Creative Commons

EXAGERO, INCONVENIÊNCIA

E OUTROS REVESES DA LIBERDADE

A POPULAÇÃO DE CRISTÃOS VERDADEIROS É IGUAL À NOMINAL?

Quando ainda era noivo, no intuito de agradar minha futura esposa, decidi levar seu carro para fazer uma limpeza. O funcionário que executava costumeiramente esta tarefa em meu automóvel estranhou o novo veículo e soltou uma exclamação que, até então, era inédita para mim:

— QUERIA VER FAZER ESSA GRAÇA DURO!

Fiquei chocado e demorei um pouco para entender. Não apenas o que ele disse, mas o significado da frase e sua intenção. Só então pude explicar que o carro não era meu e que eu ainda era o mesmo duro de sempre… mas fiquei com aquela expressão guardada e, em algumas oportunidades, tive a “deixa” perfeita para utilizá-la. Porém a base desse texto não será exatamente sobre esse assunto.

Diante de tanto desconhecimento bíblico por parte daqueles que se dizem cristãos e que deveriam ser (no mínimo) bons entendedores do assunto… hoje fui impelido a escrever um texto baseado (em sua maior parte) nos fatos históricos comprováveis e em episódios cotidianos. Isso significa que não irei citar a Bíblia com a freqüência que me deixa confortável. Dessa vez vou me aproveitar de um trabalho já pronto e mastigado que encontrei em um site chamado “História da Igreja”. Não estou dizendo que apóio ou condeno o site, porém o trabalho de pesquisa histórica realizado por seu autor me poupou bastante mão de obra.

Como última premissa para a compreensão do texto, gostaria de lembrar que o surgimento do cristianismo não foi marcado por festas ou pompa. Pelo contrário! Na maior parte das vezes, ao ser identificado como cristão o indivíduo acabava se transformando em refeição para leões ou perecia através de outros meios bastante dolorosos… alguém discorda disso? Para quem não sabe nada sobre isso, seria bom que olhassem a lista de eventos dos séculos II , III e IV… lá também estão registradas as origens de outras coisas como a transformação da festa pagã do Natal em coisa cristã, a invenção do "domingo do Senhor"… no ano 400 surgem absurdos como "Maria Mãe de Deus", oração pelos mortos e sinal da cruz… mas o que ocorreu sempre através destes séculos foi a perseguição aos cristãos!

Diante de tanto sofrimento e martírio podemos então supor que o cristianismo estava fadado a terminar logo após sua estréia, não é mesmo? Mas ocorria exatamente o contrário: o número de cristãos crescia e incomodava muito o Império Romano! Mesmo diante da grande probabilidade de morrer por isso, o evangelho era pregado e, pasmem, as pessoas se convertiam! Não havia promessas de restituição ou de “superpoderes” como as que têm sido feitas nos dias de hoje… Chego a imaginar se os cristãos primitivos teriam a empáfia de sair cantando em tom de exigência: “Restitui! Eu quero de volta o que é meu!” ou então “Se diante de mim não se abrir o mar, Deus vai me fazer andar por sobre as águas… com ousadia vou mover o sobrenatural!”… desculpe se você acredita neste “outro evangelho” ao qual estou me referindo (este onde Deus se tornou o Papai Noel…), mas os cristãos verdadeiros, com seus parcos recursos materiais, criam muito mais na Bíblia que os “abençoados” dos dias de hoje.

Imagino que eles deveriam pensar algo bastante semelhante ao texto de Romanos 8:38-39 enquanto seguiam em direção às mandíbulas leoninas… Imagino (e isso é somente minha imaginação!) que até mesmo o fato de Estevão ter sido martirizado foi de extrema importância para que Paulo, mais tarde, viesse a escrever esta passagem: Estevão não “moveu o sobrenatural” e as pedras não se desviaram de suas trajetórias! Estevão simplesmente viu (e apenas viu… não viveu e sequer “tomou posse” ainda nessa vida!) a glória de Deus (Atos 7:55-56) e, confiado nesse Deus verdadeiro, preferiu entregar sua vida a se desviar das Escrituras.

Hoje tem gente cantando em volumes altíssimos (e incomodando a vizinhança) que fogo não queima e água não afoga! Hoje temos multidões crendo em rosas, lenços, óleos… qualquer “cacareco ungido”, pagando caro por esses badulaques e esquecendo que a verdadeira e única unção para os cristãos vem através do sangue de Jesus Cristo, vertido uma única vez na cruz do Calvário. Hoje há pessoas contaminando o culto racional com suas subjetividades, trazendo seus talentos para dentro da igreja como se fossem dons e transformando o que deveria ser adoração a Deus em espetáculo circense, onde o adorado passa a ser o ser humano e não o Deus eterno e imutável. Hoje há cada vez mais gente distorcendo a Bíblia para justificar doutrinas insanas… até mesmo antibíblicas; transformando o cristianismo numa espécie de seita judaica, onde o Messias ainda está por chegar e onde temos que dizimar e ofertar tal qual os judeus do Antigo Testamento. Estes, que se prendem ao texto de Malaquias, esquecem que as ofertas referidas em Malaquias 3 são aquelas descritas nos cinco primeiros capítulos de Levítico… ofertas de sacrifícios… e não veio Jesus à terra para ser o sacrifício definitivo?

E é através desse comportamento exagerado, abusivo e incômodo que os “evangélicos” se aproximam a cada dia mais da apostasia. É através dessa busca diária de sinais e milagres que as pessoas que pensam estar seguindo a Cristo se afastam de II Coríntios 5:7 e Romanos 10:17 e se aproximam alegremente de II Tessalonicenses 2:9-12, esquecendo por completo de II Coríntios 11:13-15.

Dia desses fui atacado no Orkut por um rapaz que me acusava por um comportamento “padrão” de muitos evangélicos. Vou tentar transcrever alguns trechos de suas palavras (filtrando os palavrões, é claro) para que imaginem a situação:

Olá Noturno, desculpe escrever no seu perfil sem ao menos conhecer você, eu não tenho esse hábito.

Sabe, morei mais ou menos seis anos em uma vilinha de casas. Eu tinha um vizinho, recém chegado na vila, que trabalhava vendendo cachorro quente: ele chegava de madrugada com a esposa e todas as vezes era uma barulheira de panela que você não faz idéia!

O meu quarto era anexo à cozinha dele. O meu filho era recém nascido e tinha muita dificuldade pra dormir. Imagina: eu e minha esposa tendo que tomar conta de recém nascido, acordar cedo pra trabalhar e ainda por cima aturar barulho de panela de madrugada, era desanimador.

Um belo dia, eu fui conversar com ele e pedi gentilmente para que fizesse menos barulho à noite, pois estava impossível conviver com aquela situação desagradável. Na primeira semana foi um paraíso, achei até desnecessário ter falado com ele tão diretamente.

Pouco tempo se passou quando, no ano novo, ele reuniu uma caravana de convidados em sua casa: todos riam, cantavam, comemoravam, pareciam muito à vontade na nova casa e não se preocuparam sequer em abaixar o volume do som! No dia seguinte, logo pela manhã, fui à casa da proprietária do imóvel fazer queixa do novo casal. A dona do imóvel imediatamente entrou em contato com eles, advertindo de que essa conduta era errada e que, se isso se repetisse, seria uma situação passiva de despejo. Resultado: outra semana de paz.

Certa vez o casal teve uma súbita discussão de madrugada, o motivo (eu não pude deixar de ouvir) era dinheiro. No calor da emoção o marido vira-se pra esposa e diz em tom imperativo: "Cale-se, pois você já conhece o vizinho que a gente tem. Amanhã esse palhaço vai fazer reclamação nossa e a culpa será sua!". Nesse momento a minha vontade foi de bater na porta dele e em seguida bater na cara dele, mas preferi esperar.

O tempo foi passando e nossa convivência era cada vez mais impossível: era guerra de som mais alto, troca de piadinhas, barulho de madrugada… nós estávamos desenfreados, aquela situação estava nos sufocando!

Um outro dia quando chegávamos de um passeio, ao subir a escada, escutamos uma mulher gemendo estranho e ela falava alto umas coisas esquisitas do tipo "canta-súbia, andarévia, ripa-lapalá". Ficamos realmente confusos na hora, mas logo percebemos que se tratava de um culto evangélico (… Ah! Desculpe, eu esqueci de dizer que eles eram da Assembléia de Deus!). Eu fiquei tão irado que entrei sala adentro na casa do vizinho, apontando o dedo na cara dele dizendo: parem com essa palhaçada agora!

Todos me olhavam assustados. A esposa dele logo se levantou e tipo que me empurrando disse que eu não tinha o direito de entrar na casa DELA para impedir a reunião, de fato reconheço que não tinha. O pastor logo intercedeu, apaziguando a situação. Alguns murmuravam entre si, dizendo que eu era enviado do Demônio e que o inimigo estava furioso… foi caótico!

Pouco tempo se passou e eles coloram um daqueles adesivos que vendem na “Pioneira Evangélica”, escrito "Se o Senhor é por nós, quem será contra nós?". Nesse dia eu dobrei o meu joelho e disse: "Meu Deus, por favor, eu não agüento mais essa situação, se eu estiver errado o Senhor me puna ou me faça enxergar uma solução passiva, mas se eles estiverem errados, expulse-os daqui. Uma vez que tudo será dito no dia do juízo e sendo o Senhor onisciente, onipresente e onipotente, considero a minha súplica ouvida. Obrigado e Amém".

Não se passaram quatro meses e esse casal teve que devolver o imóvel por motivo de aluguel atrasado. Eles, agora com uma filha recém nascida, passando por uma situação daquelas… era de dar mal estar. Detalhe: o cara tinha um carro muito bem equipado, mas não abrira mão dele e o engraçado é que no dia da mudança, por uma inesperada ironia do destino, achei uma carta de um grupo jurídico de cobrança que exigia o pagamento de uma das parcelas do carro que estavam atrasadas.

Essa situação foi real, eu a vivi e ela me fortaleceu ainda mais a visão que eu tenho sobre vocês. Vocês vivem numa cúpula: uma sociedade fechada, cheia de regras e condições absurdas (…) Sabe, dá ânsia de vômito quando alguém acha orgulho em dizer que é fundamentalista, sem ter fundamento algum, muitos sem o menor grau de instrução, muitos sem sequer saber ler, são cegos guiados por um líder falho, um líder que cansou de esperar a vinda de Jesus, não preciso dizer muito… um ser humano.

Desse ponto em diante ele se perde em confusão e acusações infundadas.

Resumindo a situação: mesmo não sabendo diferenciar alguém que busca a verdade através da Bíblia daqueles que aceitam ser enganados e cometerem absurdos utilizando a Palavra como pretexto, não há como negar que este jovem tem motivos mais do que suficientes para se sentir incomodado. Ele cita o termo “fundamentalista”, mas atualmente tenho preferido o termo “apologético”… e esses “neocristãos” deslumbrados e barulhentos não são nem uma coisa nem outra! Notem que, no último parágrafo, ele me enquadra no mesmo tipo de comportamento esdrúxulo, antiético e incômodo exercido por seus vizinhos e me iguala a eles juntando todos em um só “balaio” e se dirigindo a mim com o termo “vocês”! Ele está tão cansado e frustrado que quer me igualar e responsabilizar pelas atitudes insanas que eu próprio venho combatendo desde a fundação deste site… e o pior: não é apenas a mim, mas a cada um que se diga cristão.

É esta a imagem que os “cristãos” têm deixado no mundo… e eu pergunto: é esta a imagem que a Bíblia recomenda que deixemos?

O comportamento dos vizinhos “crentes”, citado pelo jovem “do mundo”, é legítimo de um cristão genuíno?

Adianta ficar colocando adesivinhos, faixas e chaveirinhos com dizeres bíblicos fora de contexto?

E, no final das contas… e isto até dói para ser escrito… a oração do justo foi atendida?

As igrejas (em minúsculas mesmo, pois são grupos de pessoas que se chamam por denominações, se organizam dentro de quatro paredes e em torno de comportamentos que nem sempre estão em concordância com a Bíblia) têm sido “A Igreja” (o genuíno Corpo de Cristo, contra quem as portas do inferno não prevalecerão. Os que conhecem A Verdade e por ela foram libertos…) ou têm se contentado em assumir um papel incerto de placebo espiritual, onde as coisas que dão certo são de Deus… mas as que não saem como o desejado só ocorrem por “falta de fé”?

Os pastores têm sido realmente aqueles que cuidam das ovelhas? …Ou têm se limitado a vender uma mercadoria na qual nem eles próprios acreditam? Afinal, é um produto altamente lucrativo: tem custo praticamente zero, bastam algumas frases bonitas e promessas vazias para que seja vendido por um décimo dos vencimentos mensais do “consumidor final” e, em caso de “falhas”, a culpa nunca é do vendedor… ou é do fornecedor (Deus) ou do usuário. Assim é mole!!!

Os irmãos buscam se auxiliar e se exortar? Ou preferem abrir mão da seriíssima responsabilidade de também fazer parte dos “ungidos do Senhor”, optando pela conveniência de depositar seus meros dízimos nas mãos do pastor achando que com isso estão comprando seu quinhão da graça de Deus? Estão vivendo o evangelho? Ou preferem se enredar com “dancinhas”; ridículos, místicos, veterotestamentários e inúteis “atos proféticos”; repetições inúteis de palavras como, por exemplo, “glória” ao invés de glorificar verdadeiramente através de suas próprias vidas e atitudes? Estão vivendo o verdadeiro e bíblico amor ou estão contaminados pela permissividade, pela tolerância excessiva e pelo ecumenismo?

Tenho visto… tenho vivido… tenho chorado e sofrido. Mas também sei que não sou o único a buscar sanidade bíblica. Não sou o único que busca exortar e, por isso, é classificado como “rebelde” ou então “soberbo”.

Imagino que a partir daqui meu texto possa render outra onda de respostas furiosas, mas não posso me furtar de falar a verdade… e muito menos de vivê-la!

Satanás plantou uma semente estratégica ao tornar o cristianismo a “religião oficial” do Império Romano logo nos primeiros séculos… ele sempre soube que tudo o que é humano também é corruptível. Ao criar a liberdade ele já contava com os exageros, com as guerras de ego e, é claro, com a ganância e com os desvios. Na verdade ele conseguiu abrir uma “porta larga” dentro do que deveria ser a porta estreita… e nem a reforma de Lutero estreitou muito esse buraco!

E daí eu me questiono… se a igreja (e não a Igreja) voltasse a ser perseguida nos dias de hoje… quantos que se dizem cristãos verdadeiramente permaneceriam professando sua fé? Quantos aceitariam pagar com a própria vida o preço de seguir a Verdade? Quem atualmente confia que a vitória não é simplesmente ter saúde ou dinheiro… mas sim uma vida eterna ao lado de Deus? Paulo sabia disso! Paulo sabia de muitas das possíveis dificuldades que podem assolar a vida de um cristão genuíno e fez questão de registrar cada um desses fatos: sobre riqueza e pobreza ele registrou Filipenses 4:11-13; sobre orações às quais Deus responde um grandioso “NÃO” ele nos conta em II Coríntios 12:7-10; sobre a vida e a morte… Romanos 8:35-39. Só falta agora vir algum desses modernos e intocáveis “ungidos de Deus” e dizer que Paulo não era cristão… porque a mim já cansaram de chamar de herege.

Irmão… se você creu em Jesus Cristo como seu único Senhor e Salvador e se arrependeu de seus pecados… VOCÊ É UM UNGIDO DO SENHOR tanto quanto qualquer um que tenha feito a mesma coisa! Veja João 7:37-39… em Israel se fazia necessário ungir reis e sacerdotes para que estes tivessem acesso ao Espírito do Senhor e pudessem liderar sobre o povo, agora este Espírito habita em nós graças a Jesus Cristo… veja Apocalipse 1:5-6.

Se você quer abrir mão de sua responsabilidade… se quer ir contra o alerta dado em Jeremias 17:5-6 e depositar sua vida nas mãos de alguém que pode estar agindo tal qual descrito em Ezequiel 34:1-10 e Isaías 56:10-12… não queira discutir com Deus quando Ele executar II Tessalonicenses 2:12.

Mas voltando à história que contei bem no início deste texto, eu lembro dos vizinhos inconvenientes da transcrição acima, lembro dos atos místicos que estão sendo realizados exatamente hoje (veja “Dia do Violento Louvor”), lembro de tantas besteiras e inutilidades que foram criadas para afastar as pessoas da Verdade de Deus mesmo dentro das igrejas… e modifico um pouco a frase do funcionário do “lava a jato” para aplicá-la às igrejas:

— QUERIA VER FAZER ESSAS GRAÇAS PERSEGUIDA!

Será que as igrejas estariam tão cheias? Será que ocorreriam comportamentos tão inconvenientes? Será que haveria espaço para tanta mentira e enganação?

Começo a me preocupar, pois dentro em breve as igrejas serão as perseguidoras da Igreja, pois já está confirmado o tempo em que aquelas não suportarão mais a sã doutrina e agirão exatamente conforme II Timóteo 4:3-4.

Diante deste quadro só me resta questionar se estou pronto para permanecer firme na Palavra até que chegue o momento de ser entregue aos leões… e isto definitivamente não é nenhuma festa e muito menos será fácil. Romanos 8:36 já nos previne sobre isso… seremos nós capazes de chegar até o verso seguinte e ser verdadeiramente mais do que vencedores?

Creio que para isso se faz necessário não nos deixarmos levar pelos “movimentos”, permanecendo humildes e sinceros no exercício do maior dom que Deus pode dar a seus servos nos últimos dias. Tempo este quando, conforme a Bíblia (Mateus 24:23-24; II Tessalonicenses 2:9-10 e Apocalipse 13:11-13), se farão muitos sinais e prodígios. Este dom é o de crer sem ver, o dom da fé pelo ouvir… e o ouvir, pela Palavra de Deus.

Que o Senhor nosso Deus possa nos guardar do mal crescente nessa terra, nos guiar em segurança através das ciladas do inimigo e nos abençoar com saúde e sabedoria. E, ainda que porventura não venhamos a receber nada disso: que nossa fé possa permanecer firmada no Senhor… pois não nos cabe julgar os desígnios de Deus.

Teóphilo Noturno