DESDE OS IDOS DO SÉCULO XVIII

E TEM GENTE QUE PENSA QUE "SUBLIMINAR" É COISA MODERNA...

Por esses dias eu tive a ingrata surpresa de ler uma obra literária que classifico como, no mínimo, desconcertante: “A Flauta Mágica – Ópera Maçônica”, de Jacques Chailley (1910-1999). Ingrata sim, pois até então eu julgava que ouvir músicas clássicas era algo “neutro”... quase santificante! Isso serviu para comprovar que “Há um caminho ao homem parece direito, mas o fim são os caminhos da morte.” (Provérbios 14:12 e 16:25).

Jacques Chailley era compositor, regente de coro, musicólogo e teórico – nasceu em Paris, em 1910. Dedicando-se inicialmente à reconstituição e revalorização da música da Idade Média, sua atividade orientou-se progressivamente para o estudo da linguagem musical e de sua evolução, dando assim grande impulso a uma nova disciplina: a Filologia musical. Esta pesquisa teórica permitiu-lhe mostrar que a evolução musical obedece leis, e não ao acaso de certos arroubos individuais. (...) Chailley dedicou-se também a esclarecer a riqueza de significado de algumas obras essenciais da história da música como: “As Paixões” e os Corais para órgão de Bach, “Tristão e Isolda” de Wagner e “O Mandarim Maravilhoso” de Bartók. (...) Estudou o papel desempenhado pela franco-maçonaria em diversas obras capitais dos séculos XVII e XIX (“A Flauta Mágica” de Mozart, “Viagem de Inverno” de Schubert e “Parsifal” de Wagner) e chegou, neste domínio, a importantes descobertas[1].

Devo explicar que o autor da obra, senhor Jacques Chailley, ao que tudo indica, não era sequer protestante. Isso é algo significativo, pois impede que tal obra tenha sido escrito por um “fanático” religioso e, por isso, aumenta a credibilidade das informações ali encontradas. Por exemplo, se fosse eu a escrever tal obra, ela sequer existiria: além de nem entender de música, a poderiam me considerar um tendencioso.

Então, após essa breve introdução, creio que a melhor forma de abordar este assunto é transcrever os trechos da obra que me chamaram a atenção antes mesmo de apresentar quaisquer conclusões. A junção de pedaços e capítulos terminou por formar um texto extenso e de conteúdo bastante técnico, podendo chegar a ser muito cansativo, mas meu objetivo aqui é permitir àqueles que estiverem lendo a possibilidade de que cheguem às suas próprias conclusões... e somente então, após as citações da obra, apresentarei minha diminuta análise. O máximo que farei é destacar (negrito e sublinhado) alguns pontos aqui e acolá no texto...

Lembrem-se: o texto a seguir (com fonte e cor diferentes) NÃO É DE MINHA AUTORIA, portanto, não me critiquem quanto a seu conteúdo. Tudo o que aqui será apresentado também me era completamente desconhecido até que me fosse apresentado através desta obra. Vamos às passagens:

PRIMEIRO TRECHO

CAPÍTULO 8 — A MAÇONARIA NA VIENA DO SÉCULO XVIII (páginas 56 e 57)

O leitor deve ter percebido que tudo o que foi dito encaminha-se para o mesmo ponto de convergência: a maçonaria, da qual a “Flauta mágica”, através de símbolos transparentes, pretende ser a glorificação. Aos que não conhecem desse movimento senão a imagem fornecida por seus adversários ou aquela disponível ao tempo do Ministério Combes, não há de ser inútil descrevê-la recorrendo aos seus próprios historiadores. A evolução política e muitas vezes anticlerical que ela conheceu no século passado, pelo menos na França[2], a violência dos slogans polêmicos que suscitou, as condenações sucessivas que sofreu por parte de papas sucessivos, os escândalos, enfim, a que seus inimigos não deixaram de procurar misturá-la com maior ou menor boa fé, tudo isso é capaz de dar uma idéia falsa a um “profano” de hoje do que poderia ser, na época de Mozart, um movimento cujas idéias congregavam, numa proporção que mal podemos imaginar, tudo o que a Europa incluía de inteligência e de generosidade, e que suscitou em nosso músico, como em muitos outros, um entusiasmo de prosélito de que a Flauta mágica nos oferece um caloroso testemunho.

O verdadeiro maremoto que constitui a história da maçonaria no século XVIII é um desses fenômenos compensatórios inevitáveis e periódicos produzidos quase obrigatoriamente por todo enfraquecimento moral dos grandes valores do espírito. Cismas, heresias, grandes asceses não são senão aspectos desse fenômeno de que está pontilhada a história da Igreja, e que põe lado a lado, com seus destinos díspares, cátaros, franciscanos e luteranos. No século XVIII, uma vez mais, a Igreja já não era, em muitos lugares, senão uma instituição política, um arcabouço social esvaziado (ou quase) de substância espiritual. A originalidade da maçonaria foi a de não se revoltar contra essas insuficiências, fazendo como se as ignorasse, e oferecendo ela mesma a seus membros uma contrapartida apropriada às aspirações do seu tempo.

Como pano de fundo, invocava um ensinamento humanitário dos filósofos do Aufklãrung, estabelecendo para si mesma a missão de ultrapassar o particularismo dos ritos e das religiões catalogadas. Num momento em que não apenas o mundo cristão da Europa, mas a própria germanofonia se via profundamente dividida pela cisão da Reforma — de um lado os Estados católicos, englobando a Áustria, de outro, os Estados protestantes, compreendendo a maior parte dos Estados alemães — ignorar estas barreiras tornava-se para muitos um verdadeiro alívio. Num momento em que já se esboçava um recuo dos horizontes, e onde começava a filtrar-se a existência de outros mundos penetrados de outras religiões, o “Como se pode ser persa?” de Montesquieu tomava um significado de caso de consciência para todos os homens que pensavam — e pensava-se muito no século XVIII. Decididamente religiosa, mas colocando em pé de igualdade, em seus altares, a Bíblia, o Corão, os Vedas e alguns outros “Livros da Lei Sagrada”, a maçonaria estabeleceu a liberdade de cada um de seus membros para aderir a esta ou aquela confissão de sua escolha. Quanto a ela, limitava-se a extrair um fundo comum apoiado num mínimo de dogmatismo: a crença num Deus criador, “o grande arquiteto do universo”, qualquer que fosse a forma sob a qual se apresentasse. Mas foi à margem desse Deus (daí as reticências, depois as condenações da Igreja romana) que ela pregou as virtudes propriamente humanas em nome das quais deveria erguer-se a Revolução Francesa, e que ela considerava suscetíveis de trazer felicidade às sociedades futuras; essa felicidade da qual a Flauta mágica, pela voz de Sarastro, cantará o idílico e, infelizmente, utópico ideal.

(...)

SEGUNDO TRECHO

CAPÍTULO 9 — MOZART E A MAÇONARIA (páginas 66 e 67)

No dia 14 de dezembro de 1784, Mozart, com sua iniciação, é oficialmente admitido no seio da maçonaria. Vale a pena lembrar aqui que toda a sua carreira desenvolveu-se num ambiente de algum modo paramaçônico, e seria pontuada por uma série de fatos significativos a esse respeito.

Desde a idade de 11 anos, Wolfgang, medicado devido a sintomas de varíola, oferece a seu médico, o Dr. Wolff de Olmutz, uma pequena ária a título de agradecimento (An die Freude K. 53), e percebemos com surpresa que já se trata de um texto maçônico: quam o teria fornecido ao menino? O próprio médico, é a suposição de J. e B. Massim; mas C. de Nys sugere que o pároco de Olmutz poderia ter sido ele mesmo maçom e ter parte nesse assunto. Quando Mozart, no ano seguinte, compõe Bastien und Bastienne, sua pequena obra é representada nos jardins do Dr. Mesmer, apóstolo do “magnetismo animal”; mas Mesmer também era maçom; chegou a provocar, em seguida, um cisma que levou seu nome (o mesmerismo) e que levou em 1783 “ao estabelecimento de uma sociedade maçônica que se formou em Paris sob o título de “Ordem da Harmonia Universal””; ela se destinava a “purificar os adeptos pela iniciação”, confirmando-os na doutrina do fundador. Aos 16 anos, em 1772, Mozart compõe uma ária sobre as palavras de um hino ritual, O heiliges Band. No ano seguinte (1773), é escolhido por Gebler, como já vimos, depois da defecção de dois músicos maçons, um dos quais Gluck, para escrever a música de cena do drama maçônico “Thamos”, de que já fizemos notar a analogia de assunto com a Flauta, e que ele remaneja em 1779. Quando viaja a Paris, em 1778, leva no bolso uma recomendação de von Gemmingen para os maçons da capital francesa, especialmente para os membros da Loja Olímpica cujos concertos estão ligados aos do Concerto Spirituel, dirigido por Lê Gros, o qual é membro da Loja Saint Jean d’Écosse du Contrat Social. Von Gemmingen o espera na volta, em Mannheim, para propor-lhe a Semíramis de que já falamos. Van Swieten e von Sonnenfelds são seus companheiros, bem antes que ele fique sabendo das altas funções que desempenham na maçonaria vienense. E a lista continua... Como se vê, a iniciação de Mozart não foi um gesto teatral, mas o termo de uma evolução lentamente preparada, a mesma que ele procurará retratar simbolicamente no primeiro ato da “Flauta mágica”.

A 14 de dezembro de 1784, ele dá o passo decisivo. Apresentado no 5 de dezembro à Loja À Benfeitora (zur Wohltätigkeit) cujo Venerável não é outro senão seu libretista de “Semíramis”, Otto von Gemmingen, é aí iniciado no grau de aprendiz, e atravessa, com uma convicção de que é testemunha toda a sua obra posterior, as provas rituais que aparecem de maneira estilizada ao longo do segundo ato de sua ópera.

Esse fervor maçônico é confirmado por um avanço rápido, porém não excepcional para a época: menos de um mês depois da sua entrada, a 7 de janeiro de 1785, é iniciado no grau de companheiro, e três meses depois, no de mestre (22 de abril).

Detalhe importante se nos lembrarmos do que foi dito sobre as relações entre Mozart e von Born: é na Loja presidida por esse último, Zur wahren Eintracht, e não na de Mozart, que ocorreu a iniciação do músico no grau de companheiro. Com efeito, dez dias depois de sua primeira iniciação, a 24 de dezembro de 1784, Mozart fazia uma visita oficial à Loja de von Born, apoiando-se num pedido da Benfeitora, e tendo em vista sua admissão no segundo grau; a iniciação foi celebrada a 7 de janeiro de 1785. É neste momento, observemos, que Mozart compõe o seu famoso quarteto chamado de “As Dissonâncias”, cuja introdução desconcertou tantos músicos, e que anuncia com fidelidade a da futura abertura da Flauta mágica. E é ainda nessa Loja que, duas semanas mais tarde, será votada a 24 de janeiro a admissão de Haydn, fixada para 28 de janeiro.

A 28 de janeiro, Haydn é aceito e sua iniciação anunciada, mas Mozart está presente, como estava no dia 14 e como estará quando Haydn for efetivamente iniciado a 11 de fevereiro.

(...)

CONTINUAÇÃO...


[1] Extraído do Dictionnaire de la musique, de Marc Honneger, 2 vls, Paris, Bordas, 1993.

[2] Em francês, maçom significa “pedreiro”.


 

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